Manifesto: Soberania Criativa e a Urgência da Periferia
- mundioca
- 25 de mar.
- 4 min de leitura

Existe um apartheid cultural em São Luís. O dinheiro público circula entre quatro paredes, enquanto o tambor de crioula e o soundsystem da periferia são vigiados pela polícia. Querem a cor do povo no folder do governo, mas não querem o som na rua.
Uma cidade que não investe na semente cultural é uma cidade condenada a ser cópia de outras. Se a gente não formar novos mestres hoje, amanhã seremos apenas consumidores de cultura enlatada vinda de fora.
A cultura de São Luís não nasce nos gabinetes; ela pulsa nas ruas, nos clubes de reggae, nos terreiros e nas pistas de skate, no surf e teatros. Por décadas, a periferia foi, e é ignorada e o artista real fica de fora do orçamento. Não temos mais tempo para esperar. O que era um descaso histórico, hoje é uma emergência social.
Essa visão não parte de um teórico de gabinete. Eu sou Beto Ehong. Nascido e criado na periferia, morador do bairro da Liberdade, o maior quilombo urbano da América Latina. Falo com a autoridade de quem carrega 20 anos de estrada, com uma produção que atravessa festivais, trilhas sonoras, cinema, literatura e o lançamento de diversos álbuns e singles. Eu vi a nossa arte resistir no sufoco e vi o potencial que desperdiçamos todos os dias.
Dados globais provam: a economia criativa é o motor do futuro. Cidades como Medellín reduziram a violência investindo no bairro. São Paulo gerou renda imediata com editais simples, o programa VAI foi criado especificamente para jovens de 18 a 29 anos e coletivos de periferia que não tinham CNPJ nem histórico em grandes leis de incentivo.
Diferente de editais tradicionais que exigem certidões negativas complexas, o VAI permite a inscrição por Pessoa Física e foca no proponente do bairro.
Isso permitiu que, em 20 anos de existência, o programa apoiasse mais de 4.000 projetos que nunca teriam acesso à Lei Rouanet ou editais estaduais burocráticos.
Enquanto o governo planeja o próximo grande palco, o artista da Liberdade, do Anjo da Guarda ou da Cidade Operária... está vendendo o instrumento para sobreviver.
Precisamos de ações imediatas.
Curto Prazo: Desburocratizar a rua. O artista precisa de uma tomada e de paz para tocar hoje, sem ser tratado como caso de polícia, precisamos mapear e reconhecer quem já está no chão da rua fazendo acontecer: as bandas, os grupos de cultura popular, os bares e as associações de bairro. A ideia é identificar esse DNA criativo da nossa gente e chegar com apoio real. Em vez de exigir pilhas de papéis, o Estado deve criar uma rota de investimento simplificado, que entenda a realidade de quem produz cultura na periferia e atenda o que eles realmente precisam para crescer.
Médio Prazo: Estrutura e Tecnologia. Estúdios públicos e capacitação técnica para que a nossa estética dispute o mercado global agora; e sempre ou longo prazo: A Bolsa Mestrinho/Mestrinha. Garantir que a criança da periferia aprenda com os nossos mestres hoje, antes que essa sabedoria ancestral se perca.
Não aceitamos mais o papel de figurantes de luxo em campanhas de turismo. Queremos remover as barreiras que impedem a nossa gente de prosperar com a própria arte. A periferia não aguenta mais esperar. O tempo da escuta acabou; nós queremos a caneta agora.
DADOS TÉCNICOS
O Fato Econômico: Cultura é PIB
Dado Brasil: Segundo a FGV (2026), para cada R$ 1,00 investido em cultura via leis de incentivo, retornam R$ 7,59 para a economia local (serviços, transporte, alimentação).
Dado Setorial: A Economia Criativa já representa mais de 3,5% do PIB brasileiro. Na periferia, esse dinheiro circula dentro do bairro, fortalecendo o comércio local (o mercadinho, a costureira do figurino, o técnico de som da rua).
"Investir na cultura da periferia de São Luís não é caridade, é estratégia de desenvolvimento econômico regional."
Referências Globais (O que funciona fora)
Medellín (Colômbia): O conceito de Urbanismo Social. Eles construíram Parques-Biblioteca e centros culturais nas zonas mais violentas. Resultado: Queda drástica nos índices de criminalidade e aumento da escolaridade. A cultura foi o abre-alas para a presença do Estado.
São Paulo (Brasil): O programa VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) foca exclusivamente em jovens da periferia com editais simplificados. Resultado: Criação de uma rede de microempreendedores culturais que hoje sustentam suas famílias sem depender de prefeitura.
Transformações Sensíveis e Profundas
Pertencimento: Quando o jovem vê o reggae ou o tambor dele sendo valorizado pelo Estado, ele deixa de querer "ir embora" para buscar sucesso fora. Ele passa a construir o sucesso onde ele mora.
Segurança Pública por Presença: Onde tem caixa de som tocando e gente na praça, a violência recua. O olhar sensível do Estado substitui o olhar repressivo da polícia.
Identidade como Ativo: São Luís não se transforma em uma cópia e torna-se uma referência. A originalidade da periferia é o que atrai o turismo de alto valor, aquele que busca o que é autêntico, não o que é cenográfico.
Agora, continue você esse texto, o que mais precisamos fazer com urgência para mudar a realidade cultural de São Luís?



Os governos estadual e municipais estão executando o maior crime cultural em nosso estado. Acabaram de falir a nossa maravilhosa música e estão gastando muitos milhões de reais com atrações de outros estados. Isso precisa ser investigado urgentemente pela politica federal. Não estou querendo acreditar no que está sendo falado por muitas pessoas; “O interesse em contratar shows milionários de fora é somente pelo fato de súper faturamentos. Só quem poderá investigar e provar isso, é a polícia 👮 investigadora. És estou muito triste e desanimado como artista maranhense!
Esse texto é cirúrgico e contundente. Deveria ser divulgado nas escolas e nas alienadas universidades da nossa terra. Estamos vivendo um "Auschwitz" no Maranhão. Estado e município empenhados em destruir a cultura e a memória de um dos estados mais plurais em cultura deste país. Além do crime financeiro, o crime mais hediondo que é matar a memória e a cultura para estabelecer a miséria da alma e gerar e expandir a violência criando um estado inabitável e insustentável que só caberá nos abismos marginais da civilização contemporânea e futura. Sem a estética não existe evolução nem desenvolvimento..
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