

BEHONG ESCRITOR
A cura vem pela fala
- Mas a fala dói!
Então escreva.
Freud
Escritor, compositor e produtor cultural.
Depois de mais de duas décadas atuando de forma intensa na cena cultural de São Luís do Maranhão e em circulação nacional, Behong inaugura um novo e decisivo capítulo de sua trajetória: a estreia na literatura.
Conhecido por uma carreira consolidada como cantor, compositor, produtor musical e criador de trilhas sonoras, Ehong sempre transitou por territórios onde a palavra, a narrativa e a cena ocupam lugar central — do teatro ao cinema, da canção à investigação jornalística. A escrita literária surge, agora, não como ruptura, mas como amadurecimento natural desse percurso.
Bacharel em Rádio e TV pela UFMA, Beto Ehong construiu uma trajetória marcada pela diversidade de linguagens e pela colaboração com nomes fundamentais da música brasileira, dividindo palcos com artistas como Nação Zumbi, Demônios da Garoa, Rita Benneditto, Otto, Black Alien, Flávia Bittencourt e Fauzy Beydoun, entre outros. Lançou quatro álbuns autorais e mantém uma produção contínua de singles disponíveis nas plataformas digitais.
Na área de trilhas sonoras, assina centenas de obras para filmes, documentários, peças teatrais e vídeos, com trabalhos premiados em festivais como o Guarnicê e reconhecimentos por instituições como o SATED. Entre os destaques estão as trilhas para 24 documentários sobre a vida e obra dos imortais da Academia Maranhense de Letras, além de produções audiovisuais e teatrais amplamente exibidas no Brasil.
Esse contato profundo com histórias, personagens, conflitos humanos e imaginários coletivos desemboca agora na literatura, onde Behong amplia seu campo de atuação como autor, trazendo para o livro uma escrita atravessada por oralidade, crítica social, observação sensível do cotidiano e forte vínculo com a realidade maranhense e brasileira.
Sua estreia literária marca não apenas um novo momento de carreira, mas a consolidação de um artista múltiplo que, ao longo dos anos, sempre trabalhou com narrativas — e que agora escolhe o livro como território central de criação.
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PEQUENOS GRANDES CONTOS

POVO ÒFÁ – A NAÇÃO DESOBRIGADA
No tempo em que o céu falava com a terra, uma nave desceu brilhando como estrela cadente e pousou à beira do grande rio, onde vivia o povo Òfà — A Nação Desobrigada, que bebia da fonte, comia do campo, dançava com o vento e repousava sob o olhar do sol.
Os viajantes das estrelas chegaram leves, calçados de silêncio e nobreza, e disseram: — Há milênios vos observamos, esperando que a lua e o destino abrissem a porta. Seus costumes complexos, seus medos e desejos. Nós vimos tudo.
O povo Òfà os recebeu como se fossem irmãos perdidos. Ofereceram a sopa de sete grãos, mariscos, frutas que traziam os sonhos doces. Na noite quente e pungente, acenderam a grande fogueira, e dançaram — corpos pintados, pés descalços, almas limpas.
Os viajantes disseram que jamais haviam guerreado. Eram sábios de olhos fundos, nunca de mãos sujas - Jamais interferimos em desrespeito a essência de qualquer vida que seja – disseram.
Quando perguntados sobre sua chegada, sussurraram: — Viemos por sementes, água, cavalos.
O líder Òfà ergueu a palma: — Levem. O que corre no rio, o que brota da terra, o que pisa no chão, não tem dono.
Em retribuição, os viajantes ofereceram o metal de sua origem. Um fragmento que capturava o olhar como um feitiço. — Em nosso mundo, este metal vale mais que a vida. Por ele, até anjos caem. No entanto vocês parecem merecer, mais do que nós. Tome-o.
Os Òfà sorriram. Guardaram-no ali mesmo sobre o véu da noite, depois entre panos de linho, mais tarde sobre colares, depois nos rituais, depois nos altares. O metal virou encanto, virou símbolo, virou desejo.
Logo, os rumores germinaram como erva daninha ao redor do rio: havia uma pedra que era pura luz, pura riqueza, pura eternidade.
Mas o que é indivisível não se parte sem rasgar o mundo.
Vieram os vizinhos, primeiro a tribo Dun, vieram as lutas, vieram as luas vermelhas. Os Òfà, antes desobrigados, tornaram-se guardiões, depois soldados, depois apenas vultos do que foram. Em seguida, tribo após tribo, a guerra se tornou santa.
A fome veio. A seca veio. O domínio.
Muito tempo depois, os viajantes retornaram. Talvez por grãos, talvez por água, talvez por cavalos. Talvez por mais fogueira e sopa.
Só encontraram silêncio. No altar de pedra, o metal ainda pulsava, abandonado, cintilando sob a poeira.
Agora, sim — podiam levar tudo

BOB TROUXA
Roberto era desses que viram ponto de referência sem nunca virar placa. Na quebrada, todo mundo sabia onde achar. Quando a casa rangia, quando o fio cuspia faísca, quando o peso da geladeira parecia maior que a escada, era Bob que chamavam. Ele ia. Sempre ia. Com aquele sorriso de quem acredita que o mundo se ajeita no braço, no favor, no “deixa comigo”.
Bob achava que ajudar era um tipo de oração muda.
Só não sabia que o mundo não reza de volta.
A galera abusava, claro.
— Compra ali pra mim.
— Segura isso aqui rapidinho.
Pedidos jogados como moedas em copo de pedinte. Bob aceitava. Sabia que muita gente podia fazer sozinha, mas acreditava numa matemática estranha: um dia a vida devolveria. Às vezes devolvia. Às vezes devolvia em tapa.
Trabalhava na Rua Grande, artéria aberta da cidade. São Luís, essa senhora bonita de azulejo no rosto e ferida aberta no corpo. Cartão-postal pra quem passa, lama pra quem fica. Enquanto o poder público montava palco e soltava fogos, o básico afundava no Rio Anil — esse rio que não corre, arrasta. Arrasta esgoto, promessa, paciência.
Bob chegou na comunidade ainda menino. Antes, dizem que eram bem de vida. Mas memória de criança é frágil. O pai morreu cedo demais. A casa caiu rápido demais. O que não virou dívida virou sobrevivência temporária. Depois, só chão. A mãe nunca reclamou. Bob também não. Aquilo virou realidade. E realidade, quando se repete, vira destino.
Bob pros íntimos. Bob Trouxa pros sinceros. Honesto até doer. Solidário até sangrar. Num mundo onde malícia virou inteligência, ele parecia defeito de fábrica.
— Tu é besta demais, siô — diziam.
E pediam mais um favor.
Joana era bonita como uma chance rara. Daquelas que brilham mesmo na sombra. Muita gente não entendia o que ela via nele. Às vezes, nem ela.
— Bob, tu precisa acordar. Esse povo te usa. Tu vive certo demais. Um pouco de maldade é sobrevivência. Palavra não enche geladeira.
— Palavra é palavra — ele dizia, como quem segura um princípio pra não cair.
— Princípio não paga carro, Bob. Não paga casa. Não paga nada.
Bob seguia. Separava lixo, economizava água, falava do planeta como se fosse um parente doente. Ajudava ONG, asilo, orfanato, rua. Em época de eleição, vestia camisa de candidato em que acreditava, enquanto o resto vendia voto por gasolina e troco. Ele se dizia consciente. Fazia sua parte. O mundo seguia igual.
Tinha fala boa, língua afiada pra costurar gente. Diziam que ele devia se candidatar. Ele ria. Pra ele, bastava viver com saúde. Ensino médio completo, sonho de ENEM sempre adiado. Casa pra manter. Mãe diabética. A vida sempre cobrando mais do que ele podia pagar.
Até que Joana cansou. Disse que ia embora. Classe média, tia, distância. Prometeu voltar. Nunca voltou. Disseram que Bob tinha um parafuso a menos. Talvez tivesse mesmo: ainda acreditava.
No dia seguinte à partida, Bob estava na Rua Grande. Sempre esteve. Até que um playboy deixou cair a carteira. Bob correu atrás, devolvendo o que não era dele.
Levou um empurrão.
— Quer me roubar, né?
Ali, alguma coisa rachou. Pequena, mas funda. O chefe mandou ele ficar até mais tarde. Véspera de feriado. Dinheiro rodando. Ele parado. Foi nesse dia que uma voz começou a cochichar no ouvido dele. Não gritava. Convencia.
À noite, no mercadinho, o troco veio errado. Noventa reais a mais. Bob parou. Pensou em Joana. Pensou no empurrão. Pensou na vida. Girou a chave invisível do foda-se. Não era roubo, disse pra si. Era ajuste.
Em casa, silêncio. Tranca. Rede social. Joana sorrindo com gente nova. Aquilo atravessou como faca fria. A mãe chamou pra jantar. Ele respondeu seco. Estranhou-se.
Deitado, Bob pensou que talvez fosse mesmo o trouxa que diziam. Mas a vida não para pra quem reflete demais. Só que alguma coisa tinha mudado. O mundo que exigia honestidade agora cobrava esperteza com juros.
Todo mundo gostava de Bob. Ninguém respeitava. Ele era ferramenta: útil no aperto, descartável depois. Antes não ligava. Agora ligava. E doía.
— Filho, mudar por causa dos outros é ir contra a própria natureza — disse a mãe.
— Mãe, a gente não tem nada. Fiz tudo certo. Ganhei o quê? Porra nenhuma. O pedido de desculpa veio fraco. O olhar, afiado. No quarto, Bob diagnosticou a própria vida: não era azar. Era método errado.
Parou de fazer favor grátis. Gentileza virou serviço. Serviço virou cobrança. O respeito veio torto, mas veio junto com o dinheiro.
Assumiu o centro comunitário. Viu ali uma máquina enferrujada, pronta pra rodar. Falava bonito. Organização. Visibilidade. Conexão. Contribuição. Funcionou. Não tinha planilha, mas tinha discurso. E discurso sustenta império.
Vereador apareceu. Político gosta de onde tem voto. Bob apresentava como parente distante: confiança emprestada. Algumas melhorias pingaram. Cesta básica, evento, pintura. O dinheiro circulava em sombra.
Enquanto isso, a vida dele subia. Casa melhor. Carro melhor. Roupa melhor. Boatos também. Ele negava tudo. E acreditava em parte da própria mentira.
Lembrou de Maquiavel, coisa que ele lia adolescente, aliás, esse hábito era motivo de estranheza também, O Príncipe. Moral como luxo. Sobrevivência como técnica. Os fins justificam os meios — principalmente quando os meios sempre foram usados contra você.
Virou Bob Rob. Referência a Robin Hood, de discurso. Na prática, ninguém roubava dos ricos. Os pobres só recebiam o suficiente pra continuar acreditando.
Veio o cargo. Veio a candidatura. Veio a vitória. Um dia, Joana reapareceu. Abraço. Sorriso. Espanto.
— Tu seguiu meus conselhos — ela disse. — Foi além.
— Deus, Pátria e Família — ele respondeu. Tríade que protege quem já subiu.
No carro, mala cheia de dinheiro. Presente ou propina, depende do enquadramento. No vidro escuro, Bob se viu. Ajustou a gravata. O espelho devolveu sucesso. Mas não devolveu mais aquele menino.
E pela primeira vez, isso não doeu tanto quanto devia

UM DOMINGO QUALQUER
Meu pai partiu aos 78 anos. Viveu inteiro até o último instante inquieto, desses que não se deixam apagar aos poucos, mas que seguem ativos como uma chama que ilumina até o fim. Foi num domingo de sol, aparentemente comum, que esse ciclo se encerrou.
Estávamos no rancho de pesca, aquele abrigo simples à beira-mar onde guardávamos quase tudo: ferramentas, anzóis, remos, rações, utensílios, bichos e redes secando ao vento. Não era apenas um depósito de coisas, mas um templo silencioso da nossa vida: cada corda pendurada contava uma história, cada rede remendada carregava memórias de marés antigas.
Embora fosse agrônomo de profissão, meu pai sempre foi fascinado pelo mar. O campo lhe dava sustento, mas era o oceano que lhe dava alma. Foi ele quem me ensinou a decifrar os caminhos das ondas, a entender que o movimento da maré parecia conversar com o coração humano.
Naquele domingo, estávamos lado a lado, remendando uma rede de pesca. De repente, ele pousou a agulha no fio, respirou fundo e disse, com voz calma:
— É… eu acho que já deu.
A princípio, pensei que falava apenas do trabalho do dia, como quem decide parar para descansar. Mas, quando se sentou devagar e pediu para chamar minha mãe, percebi que havia algo maior acontecendo.
Corri. Pisei firme na areia fofa, o coração batendo descompassado. Gritei por minha mãe enquanto discava para a emergência. Voltei para perto dele, e foi então que ouvi sua voz, mais mansa do que nunca, quase um sussurro carregado de paz.
— Obrigado, filho, pelo homem que você é. Se algum dia eu falhei, seja no afeto ou no sustento, me perdoe. Tudo o que fiz foi por amor. Só lamento uma coisa: não ter te dado um irmão ou uma irmã. Mas eram tempos duros.
Apertei sua mão, tentando segurar a vida que escorria como areia entre os dedos. Pedi para que não falasse assim, que a ambulância já vinha, que ainda tínhamos muito tempo para conversar. Mas, no fundo, sabia que ele já estava se despedindo.
Nesse momento, minha mãe chegou, aflita.
— Que foi, homem? Não fica assim não, já cheguei.
Ele a olhou com ternura e sorriu. Um sorriso que parecia carregar uma vida inteira.
— Você… que sorte a minha ter te encontrado. Obrigado por caminhar comigo. Foram tempos difíceis, e sem você nada teria feito sentido. Quero te reencontrar um dia, mas não desse jeito cansado e gasto, caindo aos pedaços. Ainda tenho muito amor pra você, mas esse corpo já não aguenta mais.
Respirou fundo e disse:
— É incrível como o mundo dá voltas. Hoje entendo que cada caminho foi, na verdade, um encontro comigo mesmo e com vocês. Acordei cedo, vi o sol nascer e o mar despindo a beleza do infinito… não imaginei que seria meu último dia. Mas, se for, reconheço: é um lindo dia para partir rumo ao desconhecido.
Eu, em lágrimas, insisti:
— Pai, fica mais um pouco.
Ele respondeu com uma imagem que nunca mais esqueci:
— Eu bem que queria. Mas a vida é como um rio descendo a cachoeira. Chega uma hora em que não há retorno. Não vou triste, não. Fui feliz neste mundo com vocês.
Então, com um leve sorriso, fechou os olhos e não os abriu mais.
Em um domingo de sol e maresia, que nos despedimos desse homem que me ensinou a maior das lições: a vida pode ser simples, mas ainda assim profundamente maravilhosa.



