São Luís: A Capital do Reggae sem Regueiros
- mundioca
- 13 de mar.
- 2 min de leitura

A Folha de S. Paulo resolveu analisar o óbvio, e a manchete é um soco no estômago de quem ainda não se anestesiou pela propaganda oficial: “Mudança de Gosto Musical Ameaça São Luís como Capital do Reggae”. Surpresa? Só para quem vive em um gabinete com isolamento acústico. Para quem caminha pelas ruas da "Jamaica Brasileira", o silêncio do gênero entre os novos é o barulho ensurdecedor de um naufrágio anunciado.
Os dados são a certidão de óbito de uma identidade que o governo federal tentou "oficializar" em 2023. Apenas 4% dos jovens maranhenses ainda consomem o gênero. Mais grave: a maioria sequer pisa em uma festa de reggae. O título de "Capital Brasileira do Reggae" tornou-se uma honraria póstuma, um adereço de museu para uma cultura que está sendo asfixiada enquanto os políticos posam para fotos.
O roteiro da decadência é previsível e segue o manual da crise político-cultural que se arrasta há décadas: Fachada: Nomeiam-se avenidas, inauguram-se museus e criam-se festivais de calendário. E quero deixar registrado aqui a importância dessas ações para a cidade, mas...
Realidade: O regueiro, o artista, o DJ, o músico e o dono de radiola, as verdadeiras medula espinhal da Jamaica Brasileira, amargam o descaso técnico e financeiro.
São Luís virou um posto avançado de megaeventos. Sob o pretexto de "aquecer a economia" e entregar "o que o povo quer", Prefeitura e Governo do Estado torram milhões em cachês para artistas de fora, que levam o dinheiro embora no primeiro voo após o show. Enquanto isso, o artista local sobrevive na berlinda, recebendo migalhas de cachê, isso quando não precisa esperar anos na fila da humilhação burocrática para ver a cor do dinheiro.
Onde estão as vozes que, na época da oligarquia Sarney, rasgavam o verbo contra o descalabro cultural? Ao que parece, a indignação tinha prazo de validade ou preço de mercado. A cegueira seletiva atingiu produtores, jornalistas e intelectuais, mais preocupados em garantir o "seu" nos editais e cargos de confiança do que em preservar o patrimônio que dizem defender.
Na época da concessão do título de Capital do Reggae, o questionamento já era urgente: “São Luís é a capital Brasileira do Reggae... e daí?” Veja video da época aqui. Título não sustenta cultura; política pública e respeito ao artista, sim.
O Veredito
Não conheço outro lugar no mundo com tamanha potência criativa e econômica que possua uma classe política tão empenhada em transformar ouro em lixo. São Luís não está perdendo o reggae para o "gosto musical" dos jovens; está perdendo sua essência para a vaidade, corrupção e a incompetência de quem deveria zelá-la.
O reggae em São Luís hoje é como um museu suntuoso: lindo por fora, mas vazio de vida por dentro, ou como aquela avenida colorida que serve de trilha sonora para uma postagem nas redes sociais, mas não toca a vida de quem construiu a Jamaica Brasileira.
Beto Ehong
Artista, produtor, jornalista.
Veja em PDF matéria completa da F. de São Paulo a baixo.



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