São Luís déjà-vu
- mundioca
- 7 de fev.
- 2 min de leitura

São Luís se mexe, mas não sai do lugar.
Tem agenda, tem evento, tem barulho. Mas a sensação é sempre a mesma: déjà-vu. Já vi esse nome, esse horário, esse palco, essa pista. Já vi esse discurso se repetindo como se fosse novidade.
Basta olhar a mídia. O looping é evidente. E isso num tempo em que produzir nunca foi tão possível. Equipamento acessível, tecnologia na mão, informação sobrando. Mesmo assim, a cena anda em círculos. Quanto mais fácil produzir, mais difícil ver algo que realmente desloque.
Porque todo mundo passou a jogar no modo sobrevivência.
Quando se tem pouco, o medo de perder esse pouco vira regra. Aposta segura vira virtude. Risco vira erro. E a cena começa a operar como quem anda em campo minado: passo curto, cuidado excessivo, nenhuma ousadia. Criar deixa de ser gesto e vira cálculo.
Só que sem risco não existe evolução. Sem risco não existe surpresa. Sem risco não existe vida.
Quando a arte começa a se adaptar demais ao que “funciona”, ela deixa de ser linguagem e vira mercadoria. Um produto embalado, empilhado, pronto pra consumo rápido. Cultura de prateleira: você pega, paga, vai embora. Amanhã tem outra igual.
Isso é muito atual. E muito triste.
O streaming só escancarou o que já estava acontecendo. Quando a arte para de surpreender, não é só a criatividade que morre, a cena inteira adoece. Ir a um show que realmente desloca começa a parecer exceção. Quase um ato fora da curva. E não é sobre elitismo ou falta de consciência social. É também, mas to falando sobre outra coisa.
É sobre sobrevivência.
Sobre nossos corpos ocupando espaço físico, social e psicológico. Uma cena previsível não alimenta ninguém. Uma cidade sem risco vira um lugar anestesiado. Tudo funciona, nada pulsa.
E antes de apontar o dedo pra fora, é preciso engolir uma verdade dura: você é a cena.
Você que repete, você que aceita, você que vai só no que já conhece, você que confunde conforto com pertencimento. A cena não está só no palco, ela está em quem sustenta o ciclo.
Então olha direito. Sem desculpa. Sem pose.
Não se perca de vista.
O caminho ainda existe, mas ele não é seguro, nem fácil, nem confortável. Ou a cena escolhe o risco, ou vai continuar fingindo movimento enquanto apodrece em repetição.
Essa é a encruzilhada.



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