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ZINE JIRAU: PORQUE SIM!

Se você recebeu esse kit, é porque te achamos foda...

Assim começava o texto da carta impressa, entregue em mãos à minha pessoa pelo editor do Zine Jirau edição zero, Felipe Costa Cruz. O bilhete vinha junto ao livreto desenhado, tratado, montado e impresso em formato de quadrinhos, literatura, ensaios, poesias, devaneios, vida e morte, idealizado por um coletivo envolvido em artes variadas e conciso no sentido de não desperdiçar ideias. No pacote, ainda mais, adesivos, mini-posters, marcadores, abridor de cerveja. Inescapável para um esforço coletivo de juntar um grupo de amigos a coisas irreais.

Ah, e mais um livro extra, “Vila Paraíso” de Felipe Costa Cruz.


 

E diante disso, me peguei imaginando, numa era de IA e de dezenas de aplicativos propositalmente viciantes que acessamos todos os dias, por que um grupo de artistas, a maioria bem jovem, adotaria uma abordagem tão desafiadora em tempos de telas, likes, algoritmos e streams? A resposta é dada logo no primeiro parágrafo do zine: Porque sim!

 

Um projeto tão antigo quanto inovador agora, o zine, por sua criatividade e curadoria em tempo de escassez e excesso, como diz Isaac Poematron logo de cara, no seu texto sobre sua história há tantos, ainda menino, que ademais lembra da época que para tocar música tínhamos que fazer, e fechando com a sedição de que deveríamos encontrar maneiras mais inteligentes de gerir a abundância.

 


O zine segue com sua crítica cultural, arte e política, trazendo nomes que já desafiam há algum tempo esse cenário sombrio, cheio de sorrisos filtrados por clareamentos. Felipe Costa Cruz, Paulo Freire, Chermom, Brena Coimbra, Tiago Máci, Klicia, Matheus Max, Brenda Melo, Luís Fernando Mifô, Lara Moura, Manaíra, Namybia, Isaac Poematron, Daniel Rodrigues, Amélia Seba, César Teixeira... são esses e essas que, nesta edição zero, fazem a celulose respirar. Eles apostam que as pessoas ainda anseiam por uma conexão tátil com a arte, acreditando que as páginas físicas são uma boa maneira de nos conectar à realidade quando passamos tanto tempo separados dela.

 

Os zines nasceram nos EUA na década de 1930 e têm como essência a liberdade criativa. São publicações independentes, na maioria das vezes feitas de forma artesanal, com colagens, desenhos e textos, sem censura ou fins lucrativos. E foi assim que o formato ganhou o mundo, e hoje mais do que nunca, como algo que não pode ser deletado por um clique, uma maneira física de mostrar que a realidade realmente importa.

 


Até aí tudo bem, isso é história, mas hoje, em tempo de algoritmo infinito dificultando a conexão com a cena real, o zine é mais do que uma ferramenta bacana de difusão de artistas independentes, que desenham, tratam, montam, imprimem, fazem todos os rolês. O Zine Jirau surge no cenário oferecendo muitos mais do que uma abordagem desafiadora, quase desesperada e fora do algoritmo, ele imprime e mostra que nem toda arte ta venda, no sentido de oferecê-la em uma prateleira limpa da mono indústria guiada por um sistema binário. O zine Jirau propõe que arte contínua sagrada ou pelo menos crítica. Lembra que no fim tudo pode ser apenas um Sonho da Padoca manchando de café um papel de pão.


Se você quiser encontrá-los, provavelmente ainda terá que ligar o celular, mas a partir daí o risco é seu.


@betoehong

Um floxonauta



 

 

 

 
 
 

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