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MANIFESTO ESCRITO ENTRE A RUA DOS AFOGADOS E O CAMINHO DA BOIADA


foto: Emílio Sagaz
foto: Emílio Sagaz

Não escrevo isso por impulso.Escrevo porque o silêncio já está caro demais.

Há anos atravesso linguagens, funções, frentes e formatos. Faço música, produzo cultura, escrevo, investigo, crio narrativas, componho trilhas, penso cinema, teatro, literatura, roteiro, conteúdos para redes sociais. Não porque seja moda ser múltiplo, mas porque nesta cidade quem escolhe um só papel some. A cultura aqui não sustenta especialização, exige sobrevivência.

E mesmo assim, sigo invisível.

O poder público enxerga cultura como decoração institucional: aparece quando convém, some quando exige continuidade. Não há projeto, não há visão, não há política, não há agenda, só improviso. Cultura vira evento, não processo. Foto, não fundamento. Palanque, não escuta.

O setor privado, por sua vez, confunde apoio cultural com gentileza ocasional. Quer retorno rápido, estética palatável, discurso domesticado. Investe no que já foi validado fora, ignora o que nasce aqui com identidade própria. Não aposta: consome.

Mas talvez o ponto mais duro seja admitir:o problema não mora fora.

Existe uma cena cultural em São Luís do Maranhão que se acostumou com pouco. Pouca pesquisa, pouco risco, pouca profundidade. Uma cena que se alimenta de tapinhas nas costas, recicla referências até a exaustão e chama repetição de linguagem. Música copiada, discurso previsível, urgência artificial. Tudo muito imediato, tudo descartável, tudo igual.

Dentro desse cenário, floresceu também uma falsa vanguarda. Um campo que se diz moderno, progressista, produtivo, mas que opera com a mesma lógica rasa que critica. Troca processo por performance, conteúdo por discurso, risco real por estética de risco. Muda o vocabulário, atualiza o figurino, mas preserva a estrutura.

Em muitos casos, essa vanguarda performática é mais previsível do que o conservadorismo assumido do poder público. Porque enquanto o conservador limita por convicção, a falsa vanguarda limita por conveniência. Fala de ruptura, mas se organiza para que nada se rompa. Se diz à frente, mas anda em círculos.

O resultado é uma mediocridade confortável em circulação.E ela é aplaudida.

Quem tenta aprofundar incomoda.Quem tenta durar cansa.Quem não se rende, paga com invisibilidade.

E tô parando.

Parando de disputar espaço com a falta de critério.Parando de explicar o óbvio pra quem confunde aparência com trabalho.Parando de insistir onde não há escuta, só pose.Parando de olhar esse cenário e me perguntar se continuar lutando não virou um gesto solitário demais.

Sim, existe um cansaço real, a ponto de desistir.E fingir que isso não existe seria desonesto.

Mas este texto não é um pedido de socorro.É um aviso.

A cultura não está morrendo por falta de talento.Ela tá morrendo por falta de estrutura, coragem e responsabilidade coletiva.

Ainda há saída, mas ela não é confortável: Exige políticas culturais que pensem processos longos, não só resultados rápidos. Exige um setor privado que compreenda cultura como valor simbólico e social, não só vitrine. Exige uma classe artística menos satisfeita com migalhas e mais comprometida com pesquisa, linguagem e identidade. Exige redes reais, não alianças oportunistas.

A cultura não precisa de mais aplauso fácil.Precisa de rigor, continuidade e verdade.

Enquanto isso não acontece, sigo criando, não por romantismo, mas por teimosia ética. Porque desistir ainda dói mais do que insistir. Mas que fique claro: ninguém sustenta esse esforço para sempre sem resposta.

O silêncio já não é opção.E a mediocridade, muito menos.


Beto Ehong

Cantor, compositor, radialista, ator, escritor, produtor cultural e musical, designe, DJ, figurinista, empresário, sonhador, esposo de Flávia e pai de Marina e Emiliano.

 
 
 

2 comentários

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Alberto
05 de jan.
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Lúcido, necessário e brilhante! ✨ Bravo, Beto!👏🏼👏🏼👏🏼

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05 de jan.
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